segunda-feira, 29 de abril de 2013

Bagagem

Cada trabalho da carreira de um ator é como se fosse um carimbo no passaporte marcando viagens (boas ou ruins) para lugares, épocas e vidas diferentes. Além das lembranças, de cada uma dessas viagens, nós atores, trazemos um souvenir que é conservado com muito carinho.

Esses souvenires são aquelas experiências que vão nos transformando e melhorando com o passar do tempo. É a nossa bagagem! Experiências ruins que nos ensinam e experiências boas que nos impulsionam!

Ouvi de um diretor muito querido algumas muitas vezes a seguinte frase: “Cometemos erros para que possamos aprender com eles e não repeti-los mais, pois se insistirmos nos mesmos erros de sempre não teremos chance de cometer novos erros e aprender ainda mais!” E é isso mesmo! Eu mesma disse em alguma postagem anterior que um ator nunca está pronto, nunca sabe tudo... É preciso estar sempre buscando aprender e melhorar a cada dia. E a melhor forma pra aprender e se aperfeiçoar é cometendo erros!

Por exemplo: se num determinado trabalho o ator acabou perdendo a voz por forçar demais, da próxima vez ele certamente vai se dedicar mais ao aquecimento vocal, ou vai buscar aperfeiçoar sua respiração e uso do diafragma. Se em outro trabalho o ator esqueceu o texto em cena, da próxima vez ele vai pensar porque isso aconteceu, terá sido porque não se dedicou o suficiente para decorar ou terá sido o nervoso? Seja como for, ele vai procurar estudar mais o texto e talvez até fazer um relaxamento antes de entrar em cena. Enfim... Aconteça a falha que acontecer, é preciso corrigir! Caso contrário ficaremos estagnados, sem ter pra onde correr!

As boas experiências também nos ensinam, claro! Quando um ator cuida bem do seu figurino e maquiagem, obviamente percebe que isso lhe traz benefícios e continuará cuidando da mesma forma. Se um ator faz uma boa preparação vocal e sabe impostar sua voz sem força-la, certamente terá um bom desempenho vocal em cena e até aquela senhorinha meio surda sentada na última fileira da plateia vai ouvir e entender o que esse ator diz!



Resumindo: o ator é um mochileiro que coleciona carimbos no passaporte, que está em constante movimento, sempre na estrada carregando e preenchendo sua bagagem um pouco mais em cada uma de suas viagens e sempre trazendo um souvenir pra recordar!

Boa viagem!

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Medo

Que ator nunca teve medo de esquecer o texto? Que ator nunca sentiu frio na barriga na hora de entrar em cena? Que ator nunca quis desistir de tudo bem na hora do espetáculo começar?

Na hora de entrar em cena acontece sempre a mesma coisa comigo: o coração acelera, a respiração fica descompassada, as mãos tremem e o corpo parece tão anestesiado que eu sinto como se fosse desmaiar, mas todos esses sintomas desaparecem como mágica logo que piso no palco. É tudo muito rápido, mas essas sensações já fazem parte dessa deliciosa loucura de ser atriz.

Quantas vezes, nós atores, sentimos como se estivéssemos uma bela de uma porcaria em cena. Saímos nos achando o pior ator do mundo, um canastrão, falso, imbecil, mas recebemos do público uma resposta tão positiva que nos deixa confusos, ouvimos deles elogios e relatos emocionados sobre os momentos dramáticos da peça ou confissões de quase urinar na poltrona do teatro de tanto rir das cenas cômicas. Assim ficamos sem entender nada!

Com isso acabamos aprendendo que é muito importante ter autocrítica e saber quando poderíamos ter sido melhores, que a opinião e reações do público são os melhores termômetros e que é bom ter um pouco de medo! Com medo de errar o texto ficamos mais atentos pra não errar, só não pode bitolar e se desesperar senão aí é que dá branco mesmo!

Um ator confiante demais, normalmente, não faz um bom trabalho. Um ator que se acha pronto, que não tem mais nada pra aprender ou melhorar será sempre o mesmo e com o tempo poderá tornar-se medíocre. Algumas pessoas acham que é fácil ser ator, que não é preciso estudar... Não fazem ideia do quanto estão erradas. Qualquer profissional de qualquer área precisa estudar sempre, correr atrás, se atualizar, se aperfeiçoar e com o ator não é diferente! Ninguém nunca está pronto, ninguém nunca sabe tudo. Precisamos aprender sempre, caso contrário pra que estamos aqui?

Enfim, esses medos fazem parte! E quando um ator deixa de sentir esse frio na barriga, essa tensão é porque o casamento com o teatro não anda bem. Esse medinho de estar em cima de um palco e diante de uma plateia faz parte, tem que fazer parte! É essa adrenalina toda liberada por esses medos que vicia a gente! Eles nos instigam e nos fazem seguir em frente, que o Dionísio permita, sempre com esses medinhos bons de sentir!

Evoé!

quarta-feira, 27 de março de 2013

Dia Mundial do Teatro

O teatro é a expressão da realidade. Instrumento de divergência, advertência, ensinamento, documentação e instrução. E desde que Téspis resolveu sair do meio do coro e se destacar foi definida uma nova linhagem artística de pessoas que criam, interpretam e representam uma ação dramática baseando-se em um texto: o ator! Aí que tudo se lascou de vez mesmo!

A quantidade de pessoas que acham que o teatro (ou qualquer outro tipo de arte) não é trabalho é inacreditável! Pensam e criticam dizendo: “Teatro é coisa de vagabundo!”, “Mas você é formado?”, “Artista é tudo vagabundo, prostituta e homossexual!” e a pior de todas: “Ah, você faz teatro? Mas trabalha em que?”. Como assim trabalho em que? Eu faço teatro! Acha pouco? Então vejamos...

Ator também acorda cedo, tem um trabalho danado pra estudar e decorar um texto, criar o personagem, ensaia horas a fio, se desgasta nas apresentações e não desanima mesmo quando tem meia dúzia de gatos pingados na plateia. Pra completar ainda tem que aguentar os “amigos” pedindo ingresso grátis como se pagar R$20 pra prestigiar um espetáculo de pessoas que ralaram pra fazer um bom trabalho fosse muito se comparado com gastar R$100 numa balada de sábado a noite, encher a cara e ficar com dor de cabeça no dia seguinte. Uma empregada doméstica não cobra pra fazer faxina na sua casa? O farmacêutico não cobra pra te vender um remédio pra enjoo? O padeiro não te cobra pelo pão? Pois bem, caro amigo, tudo na vida se paga. O teatro é o meu trabalho, então eu vou te cobrar ingresso SIM!

Claro que não é fácil até porque todo tipo de arte é desvalorizada, mas nós artistas estamos sobrevivendo e pagando nossas contas. Fazer o que se gosta e o que se nasceu pra fazer é privilégio para poucos. Muitas vezes ganha-se o suficiente apenas para bancar as necessidades básicas do dia a dia, é mesmo assim se feliz pra porra! Artista sofre, mas se resiste na arte é porque ama o que faz!

Precisamos de mais pessoas que apreciem a arte! Nesse caso específico, precisa-se de mais pessoas que se disponham a levantar a bunda do sofá e ir até o teatro assistir um espetáculo que o fará refletir e não só ficar lá sentado contemplando o nada! Aposto que se aquelas pessoas que vão ao teatro de cara amarrada (porque foram obrigados pela namorada, mãe, professora,...) se abrissem aos encantos das artes cênicas, se apaixonariam! O teatro é mágico! Em que outro lugar você pode ter a sensação de poder alcançar e tocar no seu personagem preferido? Em que outro lugar você sente a raiva pulsante daquele vilão terrível ou a doçura e alegria contagiante daquele herói? SÓ NO TEATRO!

Por isso hoje, DIA MUNDIAL DO TEATRO, deixo meus parabéns a todos os meus colegas de trabalho que suam a camisa pra levar cultura e entretenimento aos poucos espectadores assíduos dos teatros de todo o mundo! Parabenizo-os pela coragem, perseverança e amor por essa arte tão bela e que engloba todas as outras artes enriquecendo-se ainda mais! Parabéns nobres guerreiros! Parabéns atores!

Vocês merecem todos os aplausos do mundo! 
Muita merda!

quinta-feira, 21 de março de 2013

Ator de cara limpa

É comum as pessoas confundirem o ator com o personagem, o público em geral acaba relacionando e tratando os dois como se fossem um só. Esquecem que o ator é uma pessoa comum com uma vida pessoal (não muito normal e nem tão agitada devido às horas decorando, ensaiando, viajando ou apresentando um espetáculo), com problemas, contas pra pagar e tudo mais que faz parte do dia a dia de qualquer ser humano. Tenho ainda a leve impressão de que os atores com aquela veia cômica mais aflorada sofrem mais com esse tipo de coisa, pois sua comicidade e peripécias em cena leva o público a acreditar que ele é assim o tempo todo, é como se o ator tivesse a obrigação de ser engraçado sempre. Muitos desses atores acabam perdendo a chance de participar de trabalhos diferenciados por estarem marcados por um gênero ou personagem que fez anteriormente.

Por que estou dizendo tudo isso? Por que tem gente que simplesmente não acredita que um ator possa ser tímido! E pensando um pouco a respeito, cheguei à conclusão de que isso é muito estranho, embora seja compreensível até certo ponto. haha

Dia desses fui divulgar apresentações de um espetáculo em algumas escolas. Visitei sala por sala pra falar um pouco sobre a peça e convidar os alunos para assistir. E era eu mesma ali, de frente praquelas pessoas, de cara limpa, sem um texto decorado, sem figurino, maquiagem, nada... Era apenas eu! E poxa, como isso é difícil!

Quando estou em cena não tenho vergonha de nada (nem mesmo quando me estabaco no tablado e a plateia inteira ri), mas ali não sou eu mesma. Embora esteja de corpo e alma ali no palco, estou vivendo um personagem que tem seus próprios conflitos, pensamentos e atitudes pré-definidas por um texto que eu estudei e decorei. Procuro me doar nesse momento e esquecer de mim. Mas quando a Hellen tem que falar em público... Ai, ai, ai! Mesmo sabendo o que tenho/preciso dizer, sou eu mesma ali e isso dificulta um pouco as coisas. Aí você pode dizer “então por que não vestir um personagem pra falar em público?” Sinceramente, não sei bem como responder, mas sei que não é bem assim que a coisa funciona. O buraco é mais embaixo! Tem situações que não tem como fazer isso. Talvez outra pessoa, outro ator/atriz consiga realizar tal façanha, mas eu não me vejo fazendo isso. Mas o importante é que sai! O que eu preciso falar em público, sai! Provavelmente não com a naturalidade propriamente minha daqueles momentos que converso com um amigo, por exemplo, ou com a mesma naturalidade (um tanto técnica) de quando estou interpretando em cima de um palco.

Resumindo: Não sou tímida, estou longe disso. Mas me sinto insegura pra falar em público, sim! Mas quando estou em cena me transformo! E acho isso o maior barato! hahaha Faz parte da graça (e esplêndida magia) de ser ator!

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Ensaio

Tem ator que não gosta de ensaiar... Tenho minhas dúvidas se essas pessoas podem ser chamadas de “atores”. Um ator de verdade, daqueles que amam o que fazem, sabe a importância de um ensaio e o valor de deixar de lado um almoço de família ou uma balada com os amigos pra ensaiar um espetáculo.

Eu sou suspeita! Como uma apaixonada pelas Artes Cênicas, eu adoro ensaiar! Acho que isso é amar o teatro: curtir todo o processo! Desde o estudo do texto até à apresentação. E eu curto! Ah, como eu curto! Não me incomodo em ficar 4, 5 horas (às vezes mais!) ensaiando, repetindo cada cena até a exaustão. São ossos do ofício, não!? Faço com prazer!

Creio que possa dizer que sou uma atriz muito fácil de dirigir. Claro que já tive meus momentos de dizer “não consigo fazer isso”, “não vou fazer assim”, “não sei como fazer”, mas no fim das contas eu meto as caras, faço o que a direção pede e dá tudo certo!

Enfim... O que eu não entendo é a falta de compromisso de alguns “atores” que dizem “na hora sai” porque não gostam de ensaiar, que não decoram texto simplesmente porque não se dedicam a essa tarefa, que faltam aos ensaios sem dar satisfação, que chegam atrasados por falta de planejamento pra chegar na hora (Claro que imprevistos acontecem, mas sempre? Tem alguma coisa errada!) e por último, os que chegam pra ensaiar sem o texto em mãos dizendo que já estão com tudo decorado e esquecem logo a primeira fala.

Todo esse processo é gostoso se você se dedicar, gostar do que faz, gostar da peça e das pessoas que trabalham ao seu lado. Por isso, faço um apelo aos verdadeiros atores: Vamos curtir isso! Vamos fazer o possível pra tornar esse momento algo pra ser lembrado com saudade. Façamos com que essa experiência profissional se torne uma boa experiência de vida também. Vamos fazer amigos e não apenas contatos. Vamos fazer teatro com amor!

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Teatro e dinheiro combinam?

Dia desses recebi um e-mail pelo meu site de uma estudante de Artes Cênicas de uma universidade pública do Sul do país. Ela dizia que antes de chegar à faculdade, havia feito um ano e meio de oficinas de teatro, em duas escolas diferentes, nada muito profissional. E agora que está chegando ao segundo ano de faculdade começou a ter dúvidas com relação ao que eu realmente quer. Ela começou a pensar e se preocupar muito com a parte financeira da coisa. Disse que no início não se importava com isso, mesmo que fosse preciso passar fome para fazer teatro, mas sua visão mudou. Hoje ela almeja ter uma vida financeira estável, que possibilite viagens e bens materiais e escreveu o e-mail para saber basicamente se: "É possível um brasileiro fazer parte de alguma companhia de teatro conhecida na França, Portugal ou algum país da Europa? Se for possível, eu imagino que a pessoa precise ralar muito, mas é possível?"

Puxa! Deve-se imaginar a minha cara depois de ler esse e-mail, não? Como responder dando minha opinião sem interferir diretamente na decisão de uma pessoa e ao mesmo tempo esclarecendo a dúvida com base na minha pouca experiência? Não sei se fiz certo, mas o que respondi foi: "De fato, viver de arte em geral (não só de teatro) no Brasil não é nada fácil. Inclusive, viver de teatro, especificamente, não é fácil em lugar algum. Tem-se a ilusão de que em alguns outros países a arte seja mais valorizada, mas o fato é que são poucos os sortudos e verdadeiros amantes do teatro que conseguem sobreviver única e exclusivamente do teatro. Sou atriz desde 2001 e assim como você, nunca tive e continuo sem ter, a menor intenção e/ou vontade de ir pra televisão. Há lugares com mais campo, vamos dizer assim, onde há mais possibilidades de trabalhar com o teatro. São Paulo (Capital), por exemplo, que é onde resido hoje. E mesmo que aqui, supostamente, tenha um campo mais amplo, ainda é muito complicado conseguir trabalhar e viver só de artes cênicas. Há muita competição, muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e muita sujeira também, não há porque negar esse fato. É preciso se dedicar e ralar muito, mas muito mesmo pra vencer com o teatro (na realidade, com qualquer tipo de arte). Eu sou uma artista e se não fosse o teatro, hoje eu estaria em qualquer outra área artística. Sou da arte e já me conformei com o fato de que se quiser continuar fazendo arte terei de abdicar de certas coisas, talvez trabalhar com qualquer outra coisa com um horário de certa flexibilidade pra que possa dedicar meu tempo livre à minha paixão e, certamente, passarei algumas dificuldades inerentes à profissão. São coisas da vida e a vida é cheia de escolhas. Não se pode ter tudo. Mas se o teatro é o que você realmente quer pra sua vida, só você mesma pode dizer. E se quer aceitar essa profissão em sua totalidade, com seus prós e contras, também só você pode decidir. Mas pense que hoje em dia nenhuma profissão é "segura". Tudo muda muito rápido, as coisas acontecem muito rapidamente hoje em dia. Hoje você está bem, tem um emprego estável e uma profissão que te possibilita uma carreira promissora e amanhã pode não ter nada disso."

Dito isso, quero acrescentar aqui o que acredito serem alguns dos vários fatores pelos quais é difícil ganhar a vida com o teatro: a falta de hábito das pessoas, a comodidade trazida pela televisão (sim, porque é muito mais fácil sentar a bunda no sofá e assistir uma novela com tema batido do que sair de casa e ir até o teatro pra assistir à um espetáculo que te faça refletir. Pra que pensar se é possível ter tudo mastigado?); os valores, de certa forma também (tem gente que gasta R$100 numa balada de sábado a noite, mas não quer pagar R$20 num ingresso de teatro, mas se tiver um global pagam sem dó) e por último a falta de incentivo. Mas há leis de incentivos, Hellen! Há, há sim! Mas até conseguir um deles, você já desistiu de fazer teatro (Obs.: Se tiver um QI se consegue rapidinho!). E há ainda uma pequena parcela de "profissionais" do ramo que conseguem ganhar dinheiro e fazer a vida com o teatro, mas como? Simples... Lucrando em cima do trabalho dos outros, normalmente dos atores que ganham uma merreca de cachê.

Enfim... Só quero dizer que viver de arte é muito difícil, mas não é impossível. Ou pelo menos não deveria ser! Infelizmente a preocupação com as contas nos persegue, tudo gira em torno do dinheiro, da necessidade de se ganhar dinheiro... E muitas vezes isso nos impede de fazer (e ser) o que verdadeiramente queremos.

Pra encerrar, deixo um pensamento sobre isso: "O que você gosta realmente de fazer? O que você faria se o dinheiro não existisse?". Pense a respeito!

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Enfiando o pé no drama

Pois é, voltei ao blog! Acontece que entre os meus muitos defeitos, tenho um muito grave: gosto de audiência. Podem me chamar de metida, aparecida ou qualquer coisa assim... O fato é que sou atriz e gosto de ter público, gosto de “aplauso”! haha Enfim, tô de volta!

Acho que já comentei aqui que quando comecei a fazer teatro já fui logo enfiando o pé no drama. Pois bem, já falei de duas experiências nesse campo do meu início de carreira e agora vou falar de outro: “Às Sombras de um Carnaval”.
Maria Rita e Rosário
É um espetáculo inspirado no conto “Antes do Baile Verde” de Lygia Fagundes Telles. Tudo acontece momentos antes do primeiro baile de carnaval da inocente Maria Rita e sua irmã mais velha, Rosário, lhe faz surpreendentes e perturbantes revelações sobre o passado da família. Só que pra chegar a essa sinopse o texto foi escrito, reescrito e modificado uma porção de vezes. É nisso que dá ter um diretor que também é autor das próprias montagens! Pode mexer a vontade! hahahaha

Adorei todas as minhas participações em montagens teatrais (no palco e nos bastidores também!), mas tenho um carinho muito especial por esse espetáculo. Me marcou de verdade! O texto é especial, forte e cheio de surpresas. Você começa a assistir pensando que é uma coisa, aí lá pro meio da peça você já começa a pensar de outro jeito e de repente tudo se inverte. Isso sem falar no final! Ah, eu adoro isso! O personagem que eu interpretei, a Rosário, é meu xodó! Mais uma vez... Gosto de todos os meus personagens, mas ela é sensacional!  

Rosário
Aqui vai um vídeo com trechos da peça. A gravação não está muito boa até por causa do ambiente em que foi filmado, mas dá pra ter uma noção. Espero que gostem!


domingo, 6 de maio de 2012

A Consciência do Ator

O que separa o ator do personagem? Um ator empresta o próprio corpo e voz ao seu personagem, mas deve manter-se consciente como ele mesmo. É essa consciência que o permite lembrar de texto e marcações, improvisar se algo der errado e outros detalhes técnicos extremamente importantes para o bom andamento da trama encenada e ao mesmo tempo, ele deve ter a consciência do personagem... Aquela que sente, que vive a situação da peça, que tem sua própria história e experiências de vida. Mas o que os separa? São dois seres distintos. Um com toda a sua vivência pré-definida pelo autor da obra e outro que escreve sua própria história de vida todos os dias. A arte pode transformá-los em um só ser, ainda que individualmente. Confuso?

Se a consciência do ator e a do personagem devem estar em alerta simultaneamente e o tempo todo, então a linha que separa ambas é extremamente delicada. É como a linha do Equador, os Trópicos ou Meridiano de Greenwich... Linhas imaginárias! Divisões invisíveis, porém eficazes. Limites imensuráveis. Não podemos ver, nem tocar, mas sabemos que existem e estão lá demarcando.

Um ator que vive um vilão em uma novela corre o risco de ser xingado ou até apanhar na rua. A individualidade do ator é confundida com a do personagem. E não é à toa, já que aquela linha imaginária que os separa é tão tênue.

Não é de se admirar que existam histórias de atores que enlouqueceram. Que se viram tão inseridos no íntimo do personagem que se esqueceram de si próprios. Ainda que possam ser apenas histórias fantasiosas, não é mesmo algo para se pensar? Será possível um ator esquecer completamente de si mesmo e passar a viver a vida do personagem? Será que em algum momento as duas consciências podem deixar de coexistir e apenas uma imperar? Um ator pode deixar de existir como ele mesmo nem que seja por um segundo? E seguindo a lógica de que o personagem só se torna físico com o auxílio de um ator, poderia ele existir verdadeiramente por conta própria? Se o ator empresta o corpo e a voz ao personagem mantendo sua própria consciência, então realmente há limite entre os dois. E esse limite deve ser respeitado! Se o personagem morre, morre sozinho... O ator permanece vivo!

O ator deve convencer o público de que sente pelo personagem, mas não deve “sofrer” por ele. Se o personagem leva um soco e tem o nariz quebrado, o ator usará de artifícios para convencer que está sentindo a dor de ter o nariz quebrado. Ele não irá quebrar o nariz de verdade. O ator deve convencer, transmitir verossimilhança mesmo sem o uso de artifícios. Outro exemplo, uma atriz pode fazer o público acreditar que está sentindo contrações de parto sem sequer estar grávida. A intenção do ator de transmitir a verdade deve obter sucesso sem que ele precise “sofrer as consequências”. Um ator deve ser capaz de sentir pelo personagem sem que seja necessário sentir na própria pele, sentir por sua individualidade e consciência. É isso, é isso que os separa!

terça-feira, 24 de abril de 2012

A magia do antes, durante e depois

O ritual começa antes mesmo de sair de casa, às vezes ainda no dia anterior... Separo tudo o que vou precisar e guardo cuidadosamente na mochila. Reviso todos os itens três vezes pra ter certeza de não estar esquecendo nada. Ainda assim, minutos antes de sair penso em cada detalhe pra ver se realmente não falta nada. Claro, também não como chocolate no dia, pois mela as cordas vocais e prejudica a performance.
Chego no local horas antes, tendo tempo de aprontar as coisas para que tudo seja perfeito. Ao entrar já sinto o cheiro... Aquele cheiro inconfundível de arte (embora em alguns lugares esse cheiro se misture ao cheiro de mofo, de lugar fechado).
Vou até o camarim, penduro o figurino num cabide na arara ou esticada em cima de uma cadeira, o calçado também fica ali por perto, coloco a maquiagem, grampos e uma escova de cabelo em cima do balcão a frente do espelho.
Vou para o local sagrado, a caixa mágica, o palco! Deve-se respeitá-lo! Fico descalça pra sentir toda energia transmitida pela quartelada. Caminho devagar do proscênio à rotunda, observando cada detalhe de cima a baixo... Ah, olhar para a plateia ainda vazia e imaginar o lugar lotado de espectadores dá até um calafrio!... Continuo meu reconhecimento do espaço e se o espetáculo possui cenário, me familiarizo com ele tocando cada objeto para me sentir o mais a vontade possível. Enquanto isso, acompanho as nuances de luz criada pelo técnico que está afinando a iluminação.
Reunião de elenco... Hora de acertar os últimos detalhes, de ouvir os últimos apontamentos da direção, tirar dúvidas, passar uma cena ou outra, talvez bater texto... E a hora da apresentação vai se aproximando!
Eu e meus colegas de cena vestimos nossos figurinos, fazemos nossas maquiagens, ajudamos um ao outro a se arrumar. A tensão vai aumentando e litros de água são bebidos por todos durante esse tempo. Deixo também uma garrafinha na coxia pra tomar um gole quando tiver uma chance de sair de cena. Fazemos um aquecimento de corpo e voz e eu tento não pensar no texto pra não ficar ainda mais nervosa.
O operador de som coloca um CD para o público ouvir enquanto aguarda... Está quase na hora de abrir as portas... Um último teste com a iluminação e a cortina se fecha para não estragar a surpresa.
As portas do teatro são abertas permitindo a entrada do público, que aos poucos vai se acomodando em seus lugares... Posso ouvir o burburinho, parece que teremos casa cheia!... Mais um gole d’água e ai, preciso ir ao banheiro! A ansiedade paira nos bastidores... Dá-se o primeiro sinal!
Alguém diz “merda!” e todos repetem com convicção. O elenco se posiciona nas coxias, respira fundo... De tão nervosa, respiro errado e sinto minhas mãos, pés e rosto completamente adormecidos, parecem anestesiados... Dá-se o segundo sinal e não há mais pra onde fugir!
A música de sala é substituída por uma voz que pede que todos os celulares sejam desligados e que os presentes não tirem fotos com flash, pois isso atrapalha os atores (e como atrapalha!). A voz diz o nome do espetáculo, do autor, diretor e às vezes de todo o elenco, técnica e até uma breve sinopse... Dá se o terceiro sinal! Chegou a hora!
As luzes da plateia se apagam, a cortina abre-se aos poucos revelando a cenografia e entro em cena... A anestesia passou dando lugar a um tremor. Esse primeiro minuto em cena é o mais tenso. Vou relaxando e sem perceber já estou completamente imersa na trama do texto, não sou mais eu ali, é o personagem. Mesmo que esteja consciente enquanto eu mesma, é inevitável! Uma das maiores glórias do ator é ter o poder de prender a atenção dos que o assistem, levar os olhares pra onde quiser, fazê-los crer nas ações e situações interpretadas e que todas as palavras que saem de sua boca são verdadeiras. O ator está no comando e nessa posição têm a responsabilidade e o dever de entreter, divertir, ensinar e instruir.
O espetáculo envolve os espectadores, fazendo-os interagir e sentir as emoções da história. Tudo graças aos atores que são como Deuses quando estão no palco, que é o seu altar. Mal percebo o passar do tempo e quando me dou conta do ponto do texto em que estamos, penso: “Nossa, mas já? A peça tá perto do fim. Será que pulamos alguma parte?” Não, é que tudo ocorre tão naturalmente, tão harmoniosamente, é tudo tão bom que parece passar depressa. As reações do público vão nos dando ainda mais força. O elenco deleita-se quando percebe que a plateia está envolvida, entregue, atenta e curtindo cada momento.
Agora sim, a peça se aproxima do fim... Reviravoltas, revelações, clímax e resoluções encerram a trama. Blackout! Os aplausos tomam conta do ambiente e aumentam ainda mais quando as luzes se acendem novamente e os atores aparecem juntos para agradecer... Alguns têm lágrimas nos olhos! É lindo mesmo! Meu sentimento nesse momento é um misto de alívio e de dever cumprido.
Após os devidos agradecimentos, o elenco se abraça, se elogia, se parabeniza! Os familiares, amigos, conhecidos e desconhecidos querem compartilhar desse momento. Alguns invadem o palco e os camarins. Querem abraçar todos, dar os parabéns, falar sobre alguns momentos que ficarão marcados na memória de quem assistiu.
Eu me sentindo cansada e ao mesmo tempo maravilhosamente realizada, arrumo minhas coisas pra poder voltar pra casa e descansar. Que sensação boa!
Todo o ritual se repetirá todas as vezes. O frio na barriga será sempre o mesmo, os calafrios, a anestesia, o tremor, a emoção, a grandeza.
E assim é sempre! E que assim seja!

terça-feira, 17 de abril de 2012

Drama: "Por Hoje!"

Como já disse anteriormente, comecei a fazer teatro em 2001. Durante minha permanância de 8 anos na Cia. Teatral As Três Faces da Lua em Santos/SP, posso contar nos dedos quantas vezes fiz um trabalho que não fosse um drama. Primeiramente devido à linha de trabalho do diretor e segundo porque minha veia dramática é "mais grossa" do que a cômica. Após esses 8 anos, me afastei do fazer teatral por motivos que acredito que não devo revelar aqui. 

Em meados de 2010, vim à São Paulo assistir o espetáculo de um amigo. Foi então que conheci meu marido e diretor de teatro. Comecei a trabalhar na Katinsk Produções e desde então, minha veia cômica tem sido trabahada e "engrossado"! hehe

Na quarta-feira da semana que vem, dia 25 de abril, voltarei ao drama com a estréia do espetáculo "Por Hoje!" com texto e direção de Jorge Katinsk (meu maridão hehe). Então gostaria de aproveitar este meu espaço para divulgar o trabalho e convidar todos os visitantes.

 
"Por Hoje!" é um espetáculo que nos fala sobre a família, sobre o amor. É denso, é tenso, cínico, eletrizante e comovente. Venha conhecer a nossa história, que também pode ser a sua.

No elenco: Hellen Bravo, Jorge Katinsk, Luana Marcelino, Patrícia Marcelino e Irene Rangel.

Apresentação única! Dia 25 de abril às 20h30 no Teatro Santo Agostinho (Rua Apeninos nº118 - Liberdade/SP - próximo à estação Vergueiro do metrô)

Classificação: 10 anos. Ingressos: R$40 e R$20 (estudantes).

Conto com a presença de todos! Prestigiem!