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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Ansiedade

Recebi um lindo comentário numa das postagens deste blog e aí não tive como ignorar a vontade louca de me aprofundar no assunto em mais uma postagem.

A fofa Samara Mairinck (Aliás, muito prazer, Samara!) deixou o seguinte comentário: "Querida Hellen, sou uma jovem de 14 anos participo de um grupo de teatro amador em minha igreja e agora farei um curso profissional,a minha duvida é se existe algo que posso fazer para deixar a ansiedade antes de entrar no palco. Beijos -Amo seu trabalho"

Respondi ao comentário e agora destrincho um pouco mais sobre... Há de ter uma explicação fisiológica, psicológica e até filosófica sobre a ansiedade que toma conta de um ator antes de cada apresentação. É um tal de roer unhas, vontade insistente de ir ao banheiro, um desespero doido, planejamentos infalíveis de como desaparecer sem que ninguém perceba, borboletas no estômago, formigamento no corpo, pernas bambas... Enfim, nervosismo!

Na minha humilde opinião, tudo o que faz parte dessa ansiedade é perfeitamente normal e, principalmente, saudável! Inclusive, acredito que o dia que eu não ficar nervosa antes de entrar em cena, é porque terá chegado a hora de parar de fazer teatro.  Além disso, manter-se ansioso é uma forma de estar num estado de alerta muito positivo pro trabalho.

Eu não sei exatamente o que explica esse frio na barriga, mas ele é real, é comum. E se um ator entra em cena sem nem uma acelerada diferente no coração, é porque tem alguma coisa errada. 

No teatro, nem um dia é como o anterior e nem como o seguinte. Cada apresentação é única e talvez seja isso que gera tensão. Por mais que se ensaie, a sensação de não ter controle sobre absolutamente tudo, nos consome. Há sempre a possibilidade de ocorrer eventos alheios à nossa vontade, que estão fora do nosso poder de alcance, que podem fazer com que algo surpreendente e inesperado simplesmente aconteça e o ator terá de lidar com o fato da melhor maneira possível. E por mais que um ator esteja seguro e tenha jogo de cintura... Ah, o ser humano é desesperadinho, né!? A ideia de algo fugir do combinado dá medo, desconforto e é então que a ansiedade aparece! Mas nada que alguns minutos em cena não resolvam! hehehe

Caros colegas atores, você fica nervoso antes de entrar em cena? Ótimo! Parabéns e continue assim! =D

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Medo

Que ator nunca teve medo de esquecer o texto? Que ator nunca sentiu frio na barriga na hora de entrar em cena? Que ator nunca quis desistir de tudo bem na hora do espetáculo começar?

Na hora de entrar em cena acontece sempre a mesma coisa comigo: o coração acelera, a respiração fica descompassada, as mãos tremem e o corpo parece tão anestesiado que eu sinto como se fosse desmaiar, mas todos esses sintomas desaparecem como mágica logo que piso no palco. É tudo muito rápido, mas essas sensações já fazem parte dessa deliciosa loucura de ser atriz.

Quantas vezes, nós atores, sentimos como se estivéssemos uma bela de uma porcaria em cena. Saímos nos achando o pior ator do mundo, um canastrão, falso, imbecil, mas recebemos do público uma resposta tão positiva que nos deixa confusos, ouvimos deles elogios e relatos emocionados sobre os momentos dramáticos da peça ou confissões de quase urinar na poltrona do teatro de tanto rir das cenas cômicas. Assim ficamos sem entender nada!

Com isso acabamos aprendendo que é muito importante ter autocrítica e saber quando poderíamos ter sido melhores, que a opinião e reações do público são os melhores termômetros e que é bom ter um pouco de medo! Com medo de errar o texto ficamos mais atentos pra não errar, só não pode bitolar e se desesperar senão aí é que dá branco mesmo!

Um ator confiante demais, normalmente, não faz um bom trabalho. Um ator que se acha pronto, que não tem mais nada pra aprender ou melhorar será sempre o mesmo e com o tempo poderá tornar-se medíocre. Algumas pessoas acham que é fácil ser ator, que não é preciso estudar... Não fazem ideia do quanto estão erradas. Qualquer profissional de qualquer área precisa estudar sempre, correr atrás, se atualizar, se aperfeiçoar e com o ator não é diferente! Ninguém nunca está pronto, ninguém nunca sabe tudo. Precisamos aprender sempre, caso contrário pra que estamos aqui?

Enfim, esses medos fazem parte! E quando um ator deixa de sentir esse frio na barriga, essa tensão é porque o casamento com o teatro não anda bem. Esse medinho de estar em cima de um palco e diante de uma plateia faz parte, tem que fazer parte! É essa adrenalina toda liberada por esses medos que vicia a gente! Eles nos instigam e nos fazem seguir em frente, que o Dionísio permita, sempre com esses medinhos bons de sentir!

Evoé!

quinta-feira, 21 de março de 2013

Ator de cara limpa

É comum as pessoas confundirem o ator com o personagem, o público em geral acaba relacionando e tratando os dois como se fossem um só. Esquecem que o ator é uma pessoa comum com uma vida pessoal (não muito normal e nem tão agitada devido às horas decorando, ensaiando, viajando ou apresentando um espetáculo), com problemas, contas pra pagar e tudo mais que faz parte do dia a dia de qualquer ser humano. Tenho ainda a leve impressão de que os atores com aquela veia cômica mais aflorada sofrem mais com esse tipo de coisa, pois sua comicidade e peripécias em cena leva o público a acreditar que ele é assim o tempo todo, é como se o ator tivesse a obrigação de ser engraçado sempre. Muitos desses atores acabam perdendo a chance de participar de trabalhos diferenciados por estarem marcados por um gênero ou personagem que fez anteriormente.

Por que estou dizendo tudo isso? Por que tem gente que simplesmente não acredita que um ator possa ser tímido! E pensando um pouco a respeito, cheguei à conclusão de que isso é muito estranho, embora seja compreensível até certo ponto. haha

Dia desses fui divulgar apresentações de um espetáculo em algumas escolas. Visitei sala por sala pra falar um pouco sobre a peça e convidar os alunos para assistir. E era eu mesma ali, de frente praquelas pessoas, de cara limpa, sem um texto decorado, sem figurino, maquiagem, nada... Era apenas eu! E poxa, como isso é difícil!

Quando estou em cena não tenho vergonha de nada (nem mesmo quando me estabaco no tablado e a plateia inteira ri), mas ali não sou eu mesma. Embora esteja de corpo e alma ali no palco, estou vivendo um personagem que tem seus próprios conflitos, pensamentos e atitudes pré-definidas por um texto que eu estudei e decorei. Procuro me doar nesse momento e esquecer de mim. Mas quando a Hellen tem que falar em público... Ai, ai, ai! Mesmo sabendo o que tenho/preciso dizer, sou eu mesma ali e isso dificulta um pouco as coisas. Aí você pode dizer “então por que não vestir um personagem pra falar em público?” Sinceramente, não sei bem como responder, mas sei que não é bem assim que a coisa funciona. O buraco é mais embaixo! Tem situações que não tem como fazer isso. Talvez outra pessoa, outro ator/atriz consiga realizar tal façanha, mas eu não me vejo fazendo isso. Mas o importante é que sai! O que eu preciso falar em público, sai! Provavelmente não com a naturalidade propriamente minha daqueles momentos que converso com um amigo, por exemplo, ou com a mesma naturalidade (um tanto técnica) de quando estou interpretando em cima de um palco.

Resumindo: Não sou tímida, estou longe disso. Mas me sinto insegura pra falar em público, sim! Mas quando estou em cena me transformo! E acho isso o maior barato! hahaha Faz parte da graça (e esplêndida magia) de ser ator!

terça-feira, 24 de abril de 2012

A magia do antes, durante e depois

O ritual começa antes mesmo de sair de casa, às vezes ainda no dia anterior... Separo tudo o que vou precisar e guardo cuidadosamente na mochila. Reviso todos os itens três vezes pra ter certeza de não estar esquecendo nada. Ainda assim, minutos antes de sair penso em cada detalhe pra ver se realmente não falta nada. Claro, também não como chocolate no dia, pois mela as cordas vocais e prejudica a performance.
Chego no local horas antes, tendo tempo de aprontar as coisas para que tudo seja perfeito. Ao entrar já sinto o cheiro... Aquele cheiro inconfundível de arte (embora em alguns lugares esse cheiro se misture ao cheiro de mofo, de lugar fechado).
Vou até o camarim, penduro o figurino num cabide na arara ou esticada em cima de uma cadeira, o calçado também fica ali por perto, coloco a maquiagem, grampos e uma escova de cabelo em cima do balcão a frente do espelho.
Vou para o local sagrado, a caixa mágica, o palco! Deve-se respeitá-lo! Fico descalça pra sentir toda energia transmitida pela quartelada. Caminho devagar do proscênio à rotunda, observando cada detalhe de cima a baixo... Ah, olhar para a plateia ainda vazia e imaginar o lugar lotado de espectadores dá até um calafrio!... Continuo meu reconhecimento do espaço e se o espetáculo possui cenário, me familiarizo com ele tocando cada objeto para me sentir o mais a vontade possível. Enquanto isso, acompanho as nuances de luz criada pelo técnico que está afinando a iluminação.
Reunião de elenco... Hora de acertar os últimos detalhes, de ouvir os últimos apontamentos da direção, tirar dúvidas, passar uma cena ou outra, talvez bater texto... E a hora da apresentação vai se aproximando!
Eu e meus colegas de cena vestimos nossos figurinos, fazemos nossas maquiagens, ajudamos um ao outro a se arrumar. A tensão vai aumentando e litros de água são bebidos por todos durante esse tempo. Deixo também uma garrafinha na coxia pra tomar um gole quando tiver uma chance de sair de cena. Fazemos um aquecimento de corpo e voz e eu tento não pensar no texto pra não ficar ainda mais nervosa.
O operador de som coloca um CD para o público ouvir enquanto aguarda... Está quase na hora de abrir as portas... Um último teste com a iluminação e a cortina se fecha para não estragar a surpresa.
As portas do teatro são abertas permitindo a entrada do público, que aos poucos vai se acomodando em seus lugares... Posso ouvir o burburinho, parece que teremos casa cheia!... Mais um gole d’água e ai, preciso ir ao banheiro! A ansiedade paira nos bastidores... Dá-se o primeiro sinal!
Alguém diz “merda!” e todos repetem com convicção. O elenco se posiciona nas coxias, respira fundo... De tão nervosa, respiro errado e sinto minhas mãos, pés e rosto completamente adormecidos, parecem anestesiados... Dá-se o segundo sinal e não há mais pra onde fugir!
A música de sala é substituída por uma voz que pede que todos os celulares sejam desligados e que os presentes não tirem fotos com flash, pois isso atrapalha os atores (e como atrapalha!). A voz diz o nome do espetáculo, do autor, diretor e às vezes de todo o elenco, técnica e até uma breve sinopse... Dá se o terceiro sinal! Chegou a hora!
As luzes da plateia se apagam, a cortina abre-se aos poucos revelando a cenografia e entro em cena... A anestesia passou dando lugar a um tremor. Esse primeiro minuto em cena é o mais tenso. Vou relaxando e sem perceber já estou completamente imersa na trama do texto, não sou mais eu ali, é o personagem. Mesmo que esteja consciente enquanto eu mesma, é inevitável! Uma das maiores glórias do ator é ter o poder de prender a atenção dos que o assistem, levar os olhares pra onde quiser, fazê-los crer nas ações e situações interpretadas e que todas as palavras que saem de sua boca são verdadeiras. O ator está no comando e nessa posição têm a responsabilidade e o dever de entreter, divertir, ensinar e instruir.
O espetáculo envolve os espectadores, fazendo-os interagir e sentir as emoções da história. Tudo graças aos atores que são como Deuses quando estão no palco, que é o seu altar. Mal percebo o passar do tempo e quando me dou conta do ponto do texto em que estamos, penso: “Nossa, mas já? A peça tá perto do fim. Será que pulamos alguma parte?” Não, é que tudo ocorre tão naturalmente, tão harmoniosamente, é tudo tão bom que parece passar depressa. As reações do público vão nos dando ainda mais força. O elenco deleita-se quando percebe que a plateia está envolvida, entregue, atenta e curtindo cada momento.
Agora sim, a peça se aproxima do fim... Reviravoltas, revelações, clímax e resoluções encerram a trama. Blackout! Os aplausos tomam conta do ambiente e aumentam ainda mais quando as luzes se acendem novamente e os atores aparecem juntos para agradecer... Alguns têm lágrimas nos olhos! É lindo mesmo! Meu sentimento nesse momento é um misto de alívio e de dever cumprido.
Após os devidos agradecimentos, o elenco se abraça, se elogia, se parabeniza! Os familiares, amigos, conhecidos e desconhecidos querem compartilhar desse momento. Alguns invadem o palco e os camarins. Querem abraçar todos, dar os parabéns, falar sobre alguns momentos que ficarão marcados na memória de quem assistiu.
Eu me sentindo cansada e ao mesmo tempo maravilhosamente realizada, arrumo minhas coisas pra poder voltar pra casa e descansar. Que sensação boa!
Todo o ritual se repetirá todas as vezes. O frio na barriga será sempre o mesmo, os calafrios, a anestesia, o tremor, a emoção, a grandeza.
E assim é sempre! E que assim seja!