sábado, 6 de julho de 2013

O Ministério da Saúde adverte!

Há quem diga que o teatro é uma droga daqueles que te tornam dependente e que provocam inúmeras reações. E é tão poderoso que basta experimentar uma única vez para viciar e não querer largar nunca mais.

Algumas outras pessoas dizem que o teatro é uma doença. Daquelas que se pega no ar, basta entrar num teatro e pisar num palco e pronto: INFECTADO! E algumas vezes, a “doença” do teatro pode ser genética. Uma vez infectado, o teatro fica gravado no DNA e pode ser transmitido por gerações e gerações seguidas.

Eu acho que o teatro tá mais pra um fungo, uma larvinha ou um parasita, tipo um bicho geográfico, sabe? Ele penetra na pele e vai tomando conta do corpo todo... Até que chega ao coração. E aí já era! Você será um eterno apaixonado por teatro! Bichinho danado esse, não?

Seja como for, uma vez contaminado, infectado, conquistado, arrebatado verdadeiramente pela magia do teatro, não há como abandoná-lo! As exceções que conseguem se desprender desse vício, é porque são naturalmente imunes aos encantos desta arte.

Como disse Fernanda Montenegro quando questionada sobre qual conselho daria à um ator em início de carreira: “Desista!... Confundem teatro com liberdades, licenciosidades, glórias, paetês, retrato no jornal, riquezas."... Porém,... "se morrer porque não está fazendo isso, se adoecer, se ficar em tal desassossego que não tem nem como dormir, aí volte, mas se não passar por esse distanciamento e pela necessidade dessas tábuas aqui, não é do ramo".


E o Ministério da Saúde adverte: não há vacina, tratamento e nem muito menos cura para a doença (amor, dependência, vício) pelo teatro! Ainda bem!

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A Divindade do Teatro

Não existem provas sobre a origem do teatro, mas a teoria com que mais se concorda diz que a origem do teatro ocidental é Grega e teve seu início nas festas em honra ao Deus Dionísio (ou Baco na mitologia Romana), que é o Deus dos ciclos vitais, da alegria e do vinho.

Eu, modestamente, não apenas concordo e aceito essa teoria como também acredito que essa seja a melhor forma de explicar a natureza divina do fazer teatral, que é análogo ao de um sacerdócio, em que o palco é um lugar elevado para oferecer sacrifícios aos deuses ou heróis, ou seja, um altar, e os atores são os sacerdotes dos deuses. A prática do palco exige dedicação absoluta, sacrifício e paixão. Prazer no sacrifício, isto é, vocação!

O teatro é um ritual religioso em que os deuses (atores) descem à terra para comemorar, festejar, confraternizar, provocar, mudar, emocionar e depois se vão. Sim! O ator é como um Deus nos palcos, onde ele pode fazer tudo e ser tudo, tendo o poder de realizar coisas inimagináveis, de dar vida a diferentes seres e de viver várias vidas em uma só.

O fato é que o teatro tem a idade dos deuses e todos os dias, no momento em que um ator pisa num palco, ele estará celebrando com paixão e respeito seus deuses protetores.

O teatro é essencialmente aquele momento entre o ator e o espectador. No momento em que o espetáculo é encenado ele está ali, é real, você pode senti-lo. Quando a peça acaba, o teatro some. Aquela arte, aquela história, as imagens, as personagens, desaparecem. No dia seguinte, o teatro surge novamente e extingue-se da mesma forma. É momentâneo, fugaz! O resto é só preparação para isso. O teatro mesmo é uma arte efêmera, pois aparece só ali, nesse encontro entre artistas e espectadores, com a benção do deus Dionísio.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Infantis

Seguindo a ordem cronológica dos meus trabalhos como atriz... Depois de três dramas (“As Traíras”, “... Eternamente...” e “Às Sombras de um Carnaval”) fiz um infantil. Era uma cena de 15 minutos chamada “Quem Casa, Quer Casa – Ou Não” com base no texto de Tatiana Belinky e eu era uma coelhinha caipira bem bonitinha! Hehe

Mas o que eu realmente quero falar sobre infantis é a dificuldade de se fazer um espetáculo infantil. Fazer teatro infantil não é só muito mais difícil como também é preciso ter tanta qualidade quanto o teatro adulto. Deve-se ter muito cuidado, pois você passa valores para a criança. O teatro infantil não pode ser só diversão, tem que ser aproveitado para passar também coisas boas. É um público em formação em vários sentidos!

E enquanto o público adulto fica sentado mesmo odiando a peça e ainda aplaudem por educação no final, as crianças são mais sinceras... Se gostarem, vão prestar atenção, vão querer te abraçar, querer tirar foto e lembrarão de você por um bom tempo. Mas se não gostarem, pode esquecer! Vão correr pelo teatro, virar pra conversar com o amiguinho da fileira de trás e no final ainda te dão um chute na canela. É... Bem por aí!

Mas como vale a pena fazer algo para as crianças! É o público mais “difícil”, mas é também o mais gostoso. Se você, ator, acha gratificante ouvir aplausos e gritos de aprovação de um público adulto no final de uma apresentação, experimenta isso com o público infantil, experimenta apresentar pra crianças e desfrutar dessa mesma sensação de dever cumprido e público satisfeito. É indescritível!

Taí! Essa é mais uma experiência que eu acho que todo ator deveria ter. Alguns atores fazem questão de dizer que começaram sua carreira no teatro infantil. Como se o teatro infantil foi um estágio de evolução de um ator, como se fosse menor ou menos importante. Com isso se cria um abismo entre o teatro adulto e o infantil, que não deveria existir, pois tudo é teatro. Não existe diferença! É claro que as existem diferenças entre a forma de fazer um e outro, mas não no sentido de ser melhor ou pior. A dramaturgia é uma só! E teatro infantil de qualidade é igual ao teatro adulto de qualidade. É preciso investir numa boa produção, bons textos, bons atores, um ótimo figurinista, cenógrafo, diretor... Enfim, a qualidade está nos profissionais, na competência, no talento e na consciência desses profissionais.

Mais recentemente fiz a Branca de Neve, mas não é a Branca de Neve mesmo, mas sim uma boneca dela. E foi com essa montagem que eu tive a real noção do que é apresentar um espetáculo infantil, com toda aquela interação e magia que a criançada gosta. E a melhor sensação do mundo é ver aquelas carinhas felizes chamando o nome do seu personagem e te fazendo carinho.


Nem tem muito mais o que se dizer, a não ser que é uma experiência e tanto e eu recomendo demais!

sábado, 8 de junho de 2013

O tal do DRT

Primeiramente é preciso explicar o que é esse tal de DRT que todo mundo fala: DRT é a sigla de Delegacia Regional do Trabalho. Ou seja, “ter” um DRT significa ser registrado profissionalmente, ter sua profissão regulamentada na carteira de trabalho. Estabelecendo um comparativo para melhor compreensão: o DRT é como o CNA (Cadastro Nacional dos Advogados), por exemplo. Resumindo: um ator que “tem” DRT, teoricamente, é um ator profissional, que está preparado para atuar. TEORICAMENTE!

Dito isso, vamos agora entender o sentido das palavras “amador” e “profissional”... A principal definição de amador é: “aquele que ama”. E a principal definição de profissional é: “Aquele que exerce uma ocupação como meio de vida ou para ganhar dinheiro”. Se seguirmos essa lógica, eu posso me considerar uma “atriz amadora profissional”! Afinal de contas, sou atriz, amo o que faço e ganho dinheiro com isso. Não “tenho” DRT de atriz, mas isso nunca me impediu de exercer a função e de forma alguma isso me desqualifica como profissional da área.

Porque eu disse lá em cima que o DRT significa teoricamente que um ator tem preparo e qualificação para exercer a função? Simples! DRT é apenas um número de registro profissional que, não necessariamente, qualifica alguém. Algumas pessoas podem fazer inúmeros cursos e ter o bendito do DRT e não ser “tão bom assim”. O que impede um ator sem o tal registro de ser tão bom, ou quem sabe melhor, que um ator que tem esses números na carteira profissional?

DRT é só um número, assim como o RG, o CPF, o Titulo de Eleitor e etc... E nós somos mais que isso, somos muito mais que apenas números!

Acho errado dizer que uma produção com falhas é uma produção amadora... Uma produção falha ou sem técnica é só uma produção com erros primários ou sem qualidade. Tem ator por aí com 35, 40 anos de carreira que até hoje não aprendeu a fazer teatro, pois continuam cometendo os mesmos erros de sempre, fazendo as mesmas coisas sem qualidade e da mesma forma sempre. (Lembrando uma postagem minha anterior: erre bastante, mas erre pra aprender a fazer certo, pra não cometer mais os mesmos erros e abrir espaço para novos erros, crescendo cada vez mais!)

Escrevi tudo isso só pra dar uma opinião: Ser um ator com DRT não o torna melhor que um ator que não tem. Ser um ator com 100 anos de carreira não o torna melhor que um ator com 6 meses. Ter DRT não te garante trabalho. Ser arrogante não te leva a lugar algum, já ser humilde te torna uma pessoa melhor.

Só pra ficar claro, sei que posso ser crucificada por algumas coisas que escrevi aqui, mas é só a minha opinião. E opinião é como gosto, religião, futebol e política: não se discute! Concorde ou não, mas aceite!

terça-feira, 4 de junho de 2013

Teatro Empresarial

Eis uma experiência que eu realmente preciso compartilhar! O teatro empresarial é uma maneira criativa e extremamente eficaz de capacitação profissional, de conscientização sobre procedimentos de segurança no trabalho e dinâmicas de grupos, além de promover um momento de lazer aos funcionários também ilustra a importância do trabalho em equipe e aprimora conhecimentos. Levar informação com diversão, essa é a principal função do teatro empresarial! Atraímos a atenção do público, o fazemos rir e ao mesmo tempo o ensinamos a ter um comportamento seguro, proativo, entre outros benefícios.

Você ator/atriz de teatro, imagine o seguinte: fazer de quatro a oito apresentações num único dia sendo a primeira às 05h30 da manhã e a última às 23h, numa sala sem acústica ou num espaço aberto, debaixo de uma lona num dia quente de verão, sem iluminação própria, na cara da plateia (bem pertinho mesmo), algumas vezes sem palco ou usando a carroceria de um caminhão como tablado e uma cadeira como escada, um camarim improvisado com tapumes, com um dia pra decorar o texto e de repente até sem tempo pra ensaiar direito. Imaginou? Pois bem, é mais ou menos isso o que acontece!

Se você pensa que isso é uma reclamação, aviso que é exatamente o contrário! Todas essas adversidades dão um gás novo e uma funcionalidade incrível ao ator. São detalhes que os atores acostumados às mordomias dos camarins e espelhos cheios de luzes ao redor que facilitam na hora de se maquiar, dos palcos italianos com luzes por todos os lados e acústica perfeita não conhecem.

Quando comecei a fazer teatro empresarial achei uma tremenda loucura e me apavorei, confesso! Mas hoje sei o quanto isso me ajudou e me transformou numa atriz (e pessoa) melhor. Atualmente continuo trabalhando na área com minha cia., a Katinsk Produções Artísticas, que possui vasta experiência em teatro empresarial. E essa coisa de algumas empresas entrarem em contato querendo um espetáculo pra SIPAT faltando dois dias pro evento é algo que realmente nos enlouquece a princípio, mas com o tempo nos aprimora. E aí quando você tem três meses pra decorar o texto, preparar o personagem e ensaiar um espetáculo fica tudo muuuuuuuito mais fácil! O mesmo acontece quando você já está habituado a se apresentar em salinhas pequenas e de repente se vê no palco de um grande teatro.
 
Enfim, acho que todo ator/atriz de teatro deveria trabalhar com teatro empresarial por pelo menos um mês. E ao final dessa experiência, retornando aos grandes palcos numa produção que permita um trabalho mais apurado e há longo prazo, certamente notará as mudanças em sua forma de ver o “fazer teatral”, os benefícios trazidos pelos percalços e os atalhos, truques e dicas aprendidos com o teatro empresa.

Indico e sugiro aos atores que tiverem oportunidade de viver essa experiência que o façam com a mente e o coração abertos, certos de que apesar de eventuais momentos de stress inevitáveis, terão boas histórias para lembrar depois e uma bagagem e tanto!

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Todo ator precisa saber...

O que todo ator (de teatro, mais especificamente) em formação deve saber a respeito da profissão? Aqui vai uma lista de informações que eu acho imprescindíveis para qualquer ator. De dicas de conduta até regrinhas básicas:

- O ator deve sempre ter em mente que está ali por causa do público:
O teatro é composto por um tripé: ator, espetáculo e público. Sem atores não há espetáculo, sem espetáculo não há público e sem público não há teatro. E a maior motivação para um ator de teatro deve, sempre, ser o público!

- O ator deve ter senso de hierarquia e respeito aos colegas de trabalho:
Por mais absurdo que pareça, quando escreveu o texto, o autor sabia exatamente o que queria. O diretor, por mais louco que possa parecer, também sabe o que está fazendo. E se um ator não concorda com o trabalho que está sendo desenvolvido, é preferível que abandone o projeto. Não há personagem pequeno, mas sim atores de egos inflados. Portanto, trate seus colegas de cena como semelhantes localizados no mesmo degrau da hierarquia teatral. Sem alguém para cuidar dos figurinos, montar o cenário, operar o som e luz o espetáculo fica prejudica. Logo, respeite os profissionais dessas áreas, pois o ator depende e muito deles. Ou seja, respeito é bom e todo mundo gosta e há se respeitar os que estão à frente do trabalho.

- O ator deve ser profissional:
Não é porque a sociedade discrimina o artista dizendo que o que fazemos não é trabalho, que devemos dar razão a eles. Arte é trabalho sim e ator rala pra caramba! Um ator deve ser responsável, dedicado, pontual e proficiente. É louvável ainda que ele possua garra, determinação e empenho.

- O ator deve decorar o texto e não esbarrar no cenário:
Isso é básico! Um ator sem o texto decorado é um pintor sem pincel ou pedreiro sem pá. E quando se está em cena, é o personagem e este conhece muito bem todo o espaço, logo não esbarra na cenografia.

- O ator deve ter autocrítica:
Saber admitir quando fez alguma besteira é um bom começo.

- Humilde acima de tudo:
A humildade deve estar sempre presente na vida de um ator. Por mais elogios que ele possa ouvir, é preciso estar ciente de quando estão exagerando e, principalmente, do quanto se pode melhorar SEMPRE! E cá entre nós, estrelismo não leva ninguém a lugar nenhum.

- Ator normalmente não tem vida pessoal, familiar ou sentimental:
A vida é cheia de escolhas! E quando se escolhe essa carreira, é preciso ter consciência de que terá de abrir mão de baladas com os amigos, viagens e almoços/jantares com a família porque precisa decorar texto, ensaiar e dormir bem.

- Todo ator deve ler:
A leitura enriquece o vocabulário, instiga a imaginação e melhora a capacidade de compreensão.

- O ator não deve ter medo de ser ridículo:
Se um ator tem medo do ridículo, então ele não é um bom ator.

- É sempre uma boa ensaiar descalço:
Para adquirir movimentos mais leves e apropriados com os pés, nunca se deve ensaiar de sapatos. Ensaiando descalço, o ator certamente constatará os bons resultados que isso proporciona. Inclusive pela troca de energia que ocorre entre o ator e o tablado.

- O ator deve saber o que fazer com as mãos em cena:
Cada movimento em cena deve ter uma razão de ser, uma motivação. Nada, absolutamente nada deve ser por acaso ou sem propósito. Há de se lembrar ainda que não se deve esconder as mãos, seja cerrando os punhos ou colocando as mãos em bolsos do figurino.

Por último... Você é ator, diretor, autor ou produtor de teatro? Então pare de reclamar dos problemas do teatro e apenas faça-o funcionar. Estamos tão mal acostumados a falar dos problemas do teatro: a falta de dinheiro, a falta de incentivo, a baixa venda de ingressos... E por aí vai! Mas essa “crise” provavelmente, existe desde Téspis!

Ouso propor que ao invés de reclamar sempre das mesmas coisas, busquemos entender os problemas, lidar com eles e principalmente resolvê-los.

Porque será que o público de teatro é cada vez mais escasso? Será que estamos abordando os temas que eles gostariam que abordássemos? Que tal tentar agradar a plateia dando-lhes o que eles querem ao invés de reclamar da falta de interesse deles?

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Bagagem

Cada trabalho da carreira de um ator é como se fosse um carimbo no passaporte marcando viagens (boas ou ruins) para lugares, épocas e vidas diferentes. Além das lembranças, de cada uma dessas viagens, nós atores, trazemos um souvenir que é conservado com muito carinho.

Esses souvenires são aquelas experiências que vão nos transformando e melhorando com o passar do tempo. É a nossa bagagem! Experiências ruins que nos ensinam e experiências boas que nos impulsionam!

Ouvi de um diretor muito querido algumas muitas vezes a seguinte frase: “Cometemos erros para que possamos aprender com eles e não repeti-los mais, pois se insistirmos nos mesmos erros de sempre não teremos chance de cometer novos erros e aprender ainda mais!” E é isso mesmo! Eu mesma disse em alguma postagem anterior que um ator nunca está pronto, nunca sabe tudo... É preciso estar sempre buscando aprender e melhorar a cada dia. E a melhor forma pra aprender e se aperfeiçoar é cometendo erros!

Por exemplo: se num determinado trabalho o ator acabou perdendo a voz por forçar demais, da próxima vez ele certamente vai se dedicar mais ao aquecimento vocal, ou vai buscar aperfeiçoar sua respiração e uso do diafragma. Se em outro trabalho o ator esqueceu o texto em cena, da próxima vez ele vai pensar porque isso aconteceu, terá sido porque não se dedicou o suficiente para decorar ou terá sido o nervoso? Seja como for, ele vai procurar estudar mais o texto e talvez até fazer um relaxamento antes de entrar em cena. Enfim... Aconteça a falha que acontecer, é preciso corrigir! Caso contrário ficaremos estagnados, sem ter pra onde correr!

As boas experiências também nos ensinam, claro! Quando um ator cuida bem do seu figurino e maquiagem, obviamente percebe que isso lhe traz benefícios e continuará cuidando da mesma forma. Se um ator faz uma boa preparação vocal e sabe impostar sua voz sem força-la, certamente terá um bom desempenho vocal em cena e até aquela senhorinha meio surda sentada na última fileira da plateia vai ouvir e entender o que esse ator diz!



Resumindo: o ator é um mochileiro que coleciona carimbos no passaporte, que está em constante movimento, sempre na estrada carregando e preenchendo sua bagagem um pouco mais em cada uma de suas viagens e sempre trazendo um souvenir pra recordar!

Boa viagem!

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Medo

Que ator nunca teve medo de esquecer o texto? Que ator nunca sentiu frio na barriga na hora de entrar em cena? Que ator nunca quis desistir de tudo bem na hora do espetáculo começar?

Na hora de entrar em cena acontece sempre a mesma coisa comigo: o coração acelera, a respiração fica descompassada, as mãos tremem e o corpo parece tão anestesiado que eu sinto como se fosse desmaiar, mas todos esses sintomas desaparecem como mágica logo que piso no palco. É tudo muito rápido, mas essas sensações já fazem parte dessa deliciosa loucura de ser atriz.

Quantas vezes, nós atores, sentimos como se estivéssemos uma bela de uma porcaria em cena. Saímos nos achando o pior ator do mundo, um canastrão, falso, imbecil, mas recebemos do público uma resposta tão positiva que nos deixa confusos, ouvimos deles elogios e relatos emocionados sobre os momentos dramáticos da peça ou confissões de quase urinar na poltrona do teatro de tanto rir das cenas cômicas. Assim ficamos sem entender nada!

Com isso acabamos aprendendo que é muito importante ter autocrítica e saber quando poderíamos ter sido melhores, que a opinião e reações do público são os melhores termômetros e que é bom ter um pouco de medo! Com medo de errar o texto ficamos mais atentos pra não errar, só não pode bitolar e se desesperar senão aí é que dá branco mesmo!

Um ator confiante demais, normalmente, não faz um bom trabalho. Um ator que se acha pronto, que não tem mais nada pra aprender ou melhorar será sempre o mesmo e com o tempo poderá tornar-se medíocre. Algumas pessoas acham que é fácil ser ator, que não é preciso estudar... Não fazem ideia do quanto estão erradas. Qualquer profissional de qualquer área precisa estudar sempre, correr atrás, se atualizar, se aperfeiçoar e com o ator não é diferente! Ninguém nunca está pronto, ninguém nunca sabe tudo. Precisamos aprender sempre, caso contrário pra que estamos aqui?

Enfim, esses medos fazem parte! E quando um ator deixa de sentir esse frio na barriga, essa tensão é porque o casamento com o teatro não anda bem. Esse medinho de estar em cima de um palco e diante de uma plateia faz parte, tem que fazer parte! É essa adrenalina toda liberada por esses medos que vicia a gente! Eles nos instigam e nos fazem seguir em frente, que o Dionísio permita, sempre com esses medinhos bons de sentir!

Evoé!

quarta-feira, 27 de março de 2013

Dia Mundial do Teatro

O teatro é a expressão da realidade. Instrumento de divergência, advertência, ensinamento, documentação e instrução. E desde que Téspis resolveu sair do meio do coro e se destacar foi definida uma nova linhagem artística de pessoas que criam, interpretam e representam uma ação dramática baseando-se em um texto: o ator! Aí que tudo se lascou de vez mesmo!

A quantidade de pessoas que acham que o teatro (ou qualquer outro tipo de arte) não é trabalho é inacreditável! Pensam e criticam dizendo: “Teatro é coisa de vagabundo!”, “Mas você é formado?”, “Artista é tudo vagabundo, prostituta e homossexual!” e a pior de todas: “Ah, você faz teatro? Mas trabalha em que?”. Como assim trabalho em que? Eu faço teatro! Acha pouco? Então vejamos...

Ator também acorda cedo, tem um trabalho danado pra estudar e decorar um texto, criar o personagem, ensaia horas a fio, se desgasta nas apresentações e não desanima mesmo quando tem meia dúzia de gatos pingados na plateia. Pra completar ainda tem que aguentar os “amigos” pedindo ingresso grátis como se pagar R$20 pra prestigiar um espetáculo de pessoas que ralaram pra fazer um bom trabalho fosse muito se comparado com gastar R$100 numa balada de sábado a noite, encher a cara e ficar com dor de cabeça no dia seguinte. Uma empregada doméstica não cobra pra fazer faxina na sua casa? O farmacêutico não cobra pra te vender um remédio pra enjoo? O padeiro não te cobra pelo pão? Pois bem, caro amigo, tudo na vida se paga. O teatro é o meu trabalho, então eu vou te cobrar ingresso SIM!

Claro que não é fácil até porque todo tipo de arte é desvalorizada, mas nós artistas estamos sobrevivendo e pagando nossas contas. Fazer o que se gosta e o que se nasceu pra fazer é privilégio para poucos. Muitas vezes ganha-se o suficiente apenas para bancar as necessidades básicas do dia a dia, é mesmo assim se feliz pra porra! Artista sofre, mas se resiste na arte é porque ama o que faz!

Precisamos de mais pessoas que apreciem a arte! Nesse caso específico, precisa-se de mais pessoas que se disponham a levantar a bunda do sofá e ir até o teatro assistir um espetáculo que o fará refletir e não só ficar lá sentado contemplando o nada! Aposto que se aquelas pessoas que vão ao teatro de cara amarrada (porque foram obrigados pela namorada, mãe, professora,...) se abrissem aos encantos das artes cênicas, se apaixonariam! O teatro é mágico! Em que outro lugar você pode ter a sensação de poder alcançar e tocar no seu personagem preferido? Em que outro lugar você sente a raiva pulsante daquele vilão terrível ou a doçura e alegria contagiante daquele herói? SÓ NO TEATRO!

Por isso hoje, DIA MUNDIAL DO TEATRO, deixo meus parabéns a todos os meus colegas de trabalho que suam a camisa pra levar cultura e entretenimento aos poucos espectadores assíduos dos teatros de todo o mundo! Parabenizo-os pela coragem, perseverança e amor por essa arte tão bela e que engloba todas as outras artes enriquecendo-se ainda mais! Parabéns nobres guerreiros! Parabéns atores!

Vocês merecem todos os aplausos do mundo! 
Muita merda!

quinta-feira, 21 de março de 2013

Ator de cara limpa

É comum as pessoas confundirem o ator com o personagem, o público em geral acaba relacionando e tratando os dois como se fossem um só. Esquecem que o ator é uma pessoa comum com uma vida pessoal (não muito normal e nem tão agitada devido às horas decorando, ensaiando, viajando ou apresentando um espetáculo), com problemas, contas pra pagar e tudo mais que faz parte do dia a dia de qualquer ser humano. Tenho ainda a leve impressão de que os atores com aquela veia cômica mais aflorada sofrem mais com esse tipo de coisa, pois sua comicidade e peripécias em cena leva o público a acreditar que ele é assim o tempo todo, é como se o ator tivesse a obrigação de ser engraçado sempre. Muitos desses atores acabam perdendo a chance de participar de trabalhos diferenciados por estarem marcados por um gênero ou personagem que fez anteriormente.

Por que estou dizendo tudo isso? Por que tem gente que simplesmente não acredita que um ator possa ser tímido! E pensando um pouco a respeito, cheguei à conclusão de que isso é muito estranho, embora seja compreensível até certo ponto. haha

Dia desses fui divulgar apresentações de um espetáculo em algumas escolas. Visitei sala por sala pra falar um pouco sobre a peça e convidar os alunos para assistir. E era eu mesma ali, de frente praquelas pessoas, de cara limpa, sem um texto decorado, sem figurino, maquiagem, nada... Era apenas eu! E poxa, como isso é difícil!

Quando estou em cena não tenho vergonha de nada (nem mesmo quando me estabaco no tablado e a plateia inteira ri), mas ali não sou eu mesma. Embora esteja de corpo e alma ali no palco, estou vivendo um personagem que tem seus próprios conflitos, pensamentos e atitudes pré-definidas por um texto que eu estudei e decorei. Procuro me doar nesse momento e esquecer de mim. Mas quando a Hellen tem que falar em público... Ai, ai, ai! Mesmo sabendo o que tenho/preciso dizer, sou eu mesma ali e isso dificulta um pouco as coisas. Aí você pode dizer “então por que não vestir um personagem pra falar em público?” Sinceramente, não sei bem como responder, mas sei que não é bem assim que a coisa funciona. O buraco é mais embaixo! Tem situações que não tem como fazer isso. Talvez outra pessoa, outro ator/atriz consiga realizar tal façanha, mas eu não me vejo fazendo isso. Mas o importante é que sai! O que eu preciso falar em público, sai! Provavelmente não com a naturalidade propriamente minha daqueles momentos que converso com um amigo, por exemplo, ou com a mesma naturalidade (um tanto técnica) de quando estou interpretando em cima de um palco.

Resumindo: Não sou tímida, estou longe disso. Mas me sinto insegura pra falar em público, sim! Mas quando estou em cena me transformo! E acho isso o maior barato! hahaha Faz parte da graça (e esplêndida magia) de ser ator!