terça-feira, 24 de abril de 2012

A magia do antes, durante e depois

O ritual começa antes mesmo de sair de casa, às vezes ainda no dia anterior... Separo tudo o que vou precisar e guardo cuidadosamente na mochila. Reviso todos os itens três vezes pra ter certeza de não estar esquecendo nada. Ainda assim, minutos antes de sair penso em cada detalhe pra ver se realmente não falta nada. Claro, também não como chocolate no dia, pois mela as cordas vocais e prejudica a performance.
Chego no local horas antes, tendo tempo de aprontar as coisas para que tudo seja perfeito. Ao entrar já sinto o cheiro... Aquele cheiro inconfundível de arte (embora em alguns lugares esse cheiro se misture ao cheiro de mofo, de lugar fechado).
Vou até o camarim, penduro o figurino num cabide na arara ou esticada em cima de uma cadeira, o calçado também fica ali por perto, coloco a maquiagem, grampos e uma escova de cabelo em cima do balcão a frente do espelho.
Vou para o local sagrado, a caixa mágica, o palco! Deve-se respeitá-lo! Fico descalça pra sentir toda energia transmitida pela quartelada. Caminho devagar do proscênio à rotunda, observando cada detalhe de cima a baixo... Ah, olhar para a plateia ainda vazia e imaginar o lugar lotado de espectadores dá até um calafrio!... Continuo meu reconhecimento do espaço e se o espetáculo possui cenário, me familiarizo com ele tocando cada objeto para me sentir o mais a vontade possível. Enquanto isso, acompanho as nuances de luz criada pelo técnico que está afinando a iluminação.
Reunião de elenco... Hora de acertar os últimos detalhes, de ouvir os últimos apontamentos da direção, tirar dúvidas, passar uma cena ou outra, talvez bater texto... E a hora da apresentação vai se aproximando!
Eu e meus colegas de cena vestimos nossos figurinos, fazemos nossas maquiagens, ajudamos um ao outro a se arrumar. A tensão vai aumentando e litros de água são bebidos por todos durante esse tempo. Deixo também uma garrafinha na coxia pra tomar um gole quando tiver uma chance de sair de cena. Fazemos um aquecimento de corpo e voz e eu tento não pensar no texto pra não ficar ainda mais nervosa.
O operador de som coloca um CD para o público ouvir enquanto aguarda... Está quase na hora de abrir as portas... Um último teste com a iluminação e a cortina se fecha para não estragar a surpresa.
As portas do teatro são abertas permitindo a entrada do público, que aos poucos vai se acomodando em seus lugares... Posso ouvir o burburinho, parece que teremos casa cheia!... Mais um gole d’água e ai, preciso ir ao banheiro! A ansiedade paira nos bastidores... Dá-se o primeiro sinal!
Alguém diz “merda!” e todos repetem com convicção. O elenco se posiciona nas coxias, respira fundo... De tão nervosa, respiro errado e sinto minhas mãos, pés e rosto completamente adormecidos, parecem anestesiados... Dá-se o segundo sinal e não há mais pra onde fugir!
A música de sala é substituída por uma voz que pede que todos os celulares sejam desligados e que os presentes não tirem fotos com flash, pois isso atrapalha os atores (e como atrapalha!). A voz diz o nome do espetáculo, do autor, diretor e às vezes de todo o elenco, técnica e até uma breve sinopse... Dá se o terceiro sinal! Chegou a hora!
As luzes da plateia se apagam, a cortina abre-se aos poucos revelando a cenografia e entro em cena... A anestesia passou dando lugar a um tremor. Esse primeiro minuto em cena é o mais tenso. Vou relaxando e sem perceber já estou completamente imersa na trama do texto, não sou mais eu ali, é o personagem. Mesmo que esteja consciente enquanto eu mesma, é inevitável! Uma das maiores glórias do ator é ter o poder de prender a atenção dos que o assistem, levar os olhares pra onde quiser, fazê-los crer nas ações e situações interpretadas e que todas as palavras que saem de sua boca são verdadeiras. O ator está no comando e nessa posição têm a responsabilidade e o dever de entreter, divertir, ensinar e instruir.
O espetáculo envolve os espectadores, fazendo-os interagir e sentir as emoções da história. Tudo graças aos atores que são como Deuses quando estão no palco, que é o seu altar. Mal percebo o passar do tempo e quando me dou conta do ponto do texto em que estamos, penso: “Nossa, mas já? A peça tá perto do fim. Será que pulamos alguma parte?” Não, é que tudo ocorre tão naturalmente, tão harmoniosamente, é tudo tão bom que parece passar depressa. As reações do público vão nos dando ainda mais força. O elenco deleita-se quando percebe que a plateia está envolvida, entregue, atenta e curtindo cada momento.
Agora sim, a peça se aproxima do fim... Reviravoltas, revelações, clímax e resoluções encerram a trama. Blackout! Os aplausos tomam conta do ambiente e aumentam ainda mais quando as luzes se acendem novamente e os atores aparecem juntos para agradecer... Alguns têm lágrimas nos olhos! É lindo mesmo! Meu sentimento nesse momento é um misto de alívio e de dever cumprido.
Após os devidos agradecimentos, o elenco se abraça, se elogia, se parabeniza! Os familiares, amigos, conhecidos e desconhecidos querem compartilhar desse momento. Alguns invadem o palco e os camarins. Querem abraçar todos, dar os parabéns, falar sobre alguns momentos que ficarão marcados na memória de quem assistiu.
Eu me sentindo cansada e ao mesmo tempo maravilhosamente realizada, arrumo minhas coisas pra poder voltar pra casa e descansar. Que sensação boa!
Todo o ritual se repetirá todas as vezes. O frio na barriga será sempre o mesmo, os calafrios, a anestesia, o tremor, a emoção, a grandeza.
E assim é sempre! E que assim seja!

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